02 janeiro 2012

Entrevista


Umas breves palavras que dei para Gilson Figueiredo, para o Projeto Uníssono.
http://projetounissono.blogspot.com/2011/12/victor-paes-entrevista.html


1. Victor Paes, alguma angústia técnica lhe tira o sono?
Bem, eu tenho uma certa dificuldade de pensar técnica como algo palpável demais no processo de criação. Tendo a entendê-la mais inserida em uma organicidade, que é fruto de um misto de predisposição para a coisa e de trabalho. Nesse organismo se metaboliza ao mesmo tempo tudo o que acaba convergindo numa obra. Eu sinto angústia muito aí, quando penso no quanto o trabalho está sendo ou não suficiente para alimentar a predisposição. E quando sinto essa angústia, a melhor coisa, que funciona sempre, é parar tudo e sentar para ler.


2. existem muitos poetas no Brasil?
Existem. O problema é que as dificuldades para a poesia, de todos os tipos, existem em uma quantidade proporcional. Isso acontece desde o ensino da poesia. A escola faz parecer que ler poesia é muito difícil e que escrever é muito fácil. Parece que, tanto para ler quanto para escrever, é só se concentrar no pouco que vemos dela na escola – sua funcionalidade, mais especificamente sua função emotiva (uma função legítima, veja bem, como qualquer outra, mas que não sobrevive sozinha), extraída quase à força de um mesmo grupo de seis ou sete poetas. Alguns passam a vida toda sem sair disso, mesmo após se ler e se publicar muitos livros. Mas os que são pinçados pela poesia de um modo mais sério correm por fora, buscam, enlouquecem e esses acabam vivendo a poesia mais seriamente. Esses já nem são tantos assim. Mas, claro, isso é só a ponta óbvia do iceberg. Quanto à escrita, mais especificamente, no fim não existe uma fórmula que defina alguém como escritor. Como ouvi outro dia do Raimundo Carrero, os escritores estão todos é no mesmo barco.


3. Victor Paes, poesia é arte? me desculpe a confusão, poesia é literatura?
Essa confusão é interessante. Porque se a poesia acaba, teoricamente, banida sempre para a margem da própria literatura, quanto mais da arte como um todo. Por isso é tão curioso o movimento que ela está fazendo em direção a uma reaproximação com as artes, cada vez mais no palco, em contracena, ao ponto de abdicar, muitas vezes, até das palavras. O que mostra que na verdade a poesia está acima de qualquer banimento, que ela pulsa sempre, mesmo quando lhe dão extrema unção. Inclusive quando no próprio papel.


4. Victor Paes, vc aspira um Brasil-civilização? quais suas inquietações políticas? vc se importa com política?
Teoricamente, se a política é uma mecânica que tem a todos como engrenagem, é impossível não se importar com ela, mesmo que seja através de nossa negligência. Tenho que reconhecer que às vezes tenho menos paciência do que deveria em acompanhar essa mecânica, principalmente a brasileira. Mas como política não se resume apenas à partidária, não há como um artista ser apolítico em sua obra. Fazer arte é um ato político por excelência.


5. e a mística? vc pensa nas coisas do transcendente?
Olha, já pensei mais. O complicado de pensar no transcendente é que isso já é desde o início um dar murro em ponta de faca. Sou mais pelo não pensar budista. Agora, nunca deixo de sentir espiritualidade nas coisas, em tudo. Principalmente na literatura.


 6. o q é isso de uma escrita (ou poética) fora dos gêneros? q território incomum é esse?
Olha, acho difícil dentro de um gênero não se ver elementos de todos os outros. Definimos um gênero agrupando alguns elementos que elegemos como comuns e excluindo outros. O que acontece hoje é uma tendência a cada vez mais desfazermos esses paradigmas. Esse território incomum torna-se cada vez mais comum. E isso é muito saudável.


7. qual conselho vc deixaria para um jovem poeta?
Conselho parece sempre uma afronta. Porque sempre tira quem o recebe de sua zona de conforto. Então acho que até posso falar por aí: um conselho, desconfiar sempre de sua zona de conforto. Achar sempre que quando a coisa se torna fácil demais, algo está errado. Achar sempre que nunca se leu 1% do que se deve ler. Que nunca se agiu 1% do que se deve agir.

16 dezembro 2011

Grafite

Os muros com grafites rascunham uma galeria às carreiras, encantada de enigma e ansiedade. Passando de ônibus, cada obra dura nos olhos dois segundos e a cada dia vai se cumprindo mais um pouco. Cada obra, como qualquer grande obra, uma ininterrupção, que continua nos afetando mesmo quando mudamos de rotina e deixamos de passar por uma rua.


Raimundo Carrero

Um menino. Este menino de idade incerta, vestido de preto, o eterno chapéu na cabeça, vestido sem graça, grotesco, as botas sujas, que já definiu o riso, entre irônico e entediado: “Todo riso vem de um mal-entendido. Se se olha as coisas como se deve olhá-las, nada há de risível debaixo do sol.” Ou que percebe a humanidade como “formas semelhantes às nossas, horrorosamente multiplicadas”. Ainda mais: olha para Sue admirando as flores e lateja um discurso medíocre mas cheio de desesperança: “Papai e mamãe, tenho muita, muita pena. Mas, por favor, não fiquem aborrecidos com isso! Gostaria muito das flores, muito mesmo, se não ficasse todo o tempo pensando que dentro de alguns dias elas estarão todas murchas!”

Trecho do conto "O pequeno pai do tempo", releitura de Carrero de "Judas, o obscuro", de Thomas Hardy

11 outubro 2011

lançamentos

Está fechado, amigos.
Lançamentos do meu livro "Deus ex machina":
26 de outubro, Oi Futuro Flamengo, Rio
28 de outubro, Casa das Rosas, Sampa
10 de novembro, Centro Cultural Correios, Recife
Em breve mais detalhes.


14 julho 2011

"O óbvio dos sábios" para download

Amigos, estou me preparando para lançar meu próximo livro. Está na fase final... Então, movido por essa empolgação, decidi compartilhar com quem ainda não leu o meu primeiro, O óbvio dos sábios, lançado em 2007, em pdf. Ele pode ser baixado aqui.

E a carroça segue sua estrada...

Depois me digam, ok? Abraços!