21 Outubro 2009

meu poema publicado na revista "Não Funciona" #17

um prólogo

1
a caravana ainda ainda
sob um saldo de corujas

um barco atravessa um pântano de sono

2
mover casa e árvore

a cada manhã, do mesmo cavalo
trocar a cabeça de madeira
e chicoteá-la

3
no entrementes de bugigangas
um canário em sua gaiola
para acordar tudo o que leva fora
(em seu olho e canto, dentro)
canta

4
vestir o tigre
(sua pele)
evocá-lo nas costas e cotovelos
para convencer outro tigre a morrer no lugar dele

5
mão de homem, onde via a mãe:
ele abriu uma tangente
deixando a própria mão postiça
no lugar da mão postiça dela
no braço

6
e todas as previsões
ditadas pelo oráculo do planeta
(do auge de sua inexistência)
falavam de planetas
e de sua existência

7
poucos pisavam sobre a terra

8

E foi nesse momento, ainda os trovões metade nos bolsos, o gesto emaranhado na mão, os dedos dos pés cravados no pulso da nuvem e muito planeta abaixo (pois abarcava, medida de toda fúria, de montes sem nomes às estátuas aos deuses), nesse momento, em que descobriu uma estátua sua, com seu nome e salitre e exatamente essa sua mesma pose, trovões, bolsos, mãos e pulso, estátua cujos olhos cavados também apontavam algo abaixo de si, como se outro deus também obrigado a lhe figurar, foi nesse exato momento que algo lhe chamou a atenção... e ele, sem querer, olhou para cima.

Daí ao resto de sua imortalidade, por muito que gritasse e caísse de joelhos e violentamente procurasse, encontrava apenas a realidade daquele solo de pedras que havia se materializado sob seus pés.

12 Outubro 2009

convite

Amigos, vou me apresentar, com um trabalho inédito, na próxima quarta-feira, dia 14, em uma edição do evento De Modo Geral, organizado por Paulo Scott, no Cinemathèque. Gostaria muito de sua presença lá. Pra quem não conhece meu trabalho, dê uma olhada no vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=c8rKwRoD0Fg

O convite para a apresentação vai aí embaixo.

Um grande abraço,

Victor Paes.


04 Setembro 2009

lançamento da Revista Confraria #1


















[clique no convite para vê-lo melhor]

30 Agosto 2009

Última entrevista de Raul Seixas... Um Raul muito doidão, de fala trôpega... Um Jô Soares ainda interessante, ágil... Enfim...



23 Agosto 2009

trailer

montagem de minha peça "Mara em um quarto":

na revista Confraria, em setembro nas bancas

trecho do conto "caçadores de algas", de Maria do Rosário Pedreira

"... o vento constitui, por isso, uma séria ameaça – pode entrar pelas frinchas das portas e arrastar para longe o cheiro doce do teu cachimbo; pode abrir golpes nas vidraças do quarto e cobrir de areia o côncavo do colchão do teu lado da cama; pode invadir a casa pelas traseiras e afastar as páginas de um livro abandonado sem querer numa mesa, arrastando as anotações que nele fizemos para dentro de outro livro muito diferente, arruinando meses de estudos e pesquisas."

20 Agosto 2009

Amigos, estou no Twitter: twitter.com/victor_paes
Abraços!

07 Agosto 2009

meu poema publicado na coletânea "XXI Poetas de hoje em dia(nte)"

seis facas nas coxas e omoplatas

1
funeral de granizos
(em um dos hemisférios de uma pedra
um enigma para como ajoelhar-se perante as pedras)
cerimônia terçã
tresandando a água

plantadas as abóboras pelas ladeiras
oito mil sombras de arbustos dos telhados
lanternas consertam toldos

– nublado o céu tem liga
(já serem pisadas as chagas
pelos lagartos que vivem nas cruzes)

sob os risos de cavalo das freiras
ninguém decifra as previsões do tempo
ocultas nas dobras de seus leques

2
um dançarino no salão superior
e suas seis facas cravadas
nas coxas e omoplatas
para dançar

e aquele menino
que populava vórtices
e contava algumas datas de trás para frente
quando anda
tem o som deste saco de relógios quebrados, suas molas

3
esta gruta
que tem dentro a retalhá-la
braçadores com braços
a lhe abrir plantas
e água

esta gruta
que tem ex-votos e cálcio
até o terceiro subsolo

para esta gruta
do beiral do poço (ou do prédio (das velas))
um suicida (potes (de picles))
e um palhaço (malabarismo (com malabarismo))
halo de suas cabeças em seu chão consagrado

4
descomplicar arbustos
desritmar portões
mão partida na areia fermentada
dos pratos de planta
uma pressa
ofensa
fissurar
de se livrar dos restos de velas
nos pratos
e panos de pratos

abrir precedentes traduzidos do francês pobre das docas submersas:
“cada mosquito possui dois ou três estômagos imaginários”
“enraizar-se com ouro nos pulmões de prata das crianças”

fechar a noite
por trás dos basculantes

5
três coisas inteiras a se lembrar:
fazer uma entrega em uma esquina com três Ivos
comprar repolhos
e, enfim, justo e bastardo
terminar falando com o eco das avalanches

06 Agosto 2009

resenha sobre a antologia "XXI Poetas de hoje em dia(nte)" no Estado de Minas

Tribo dos sensíveis

XXI Poetas de hoje em dia(nte) reúne escritores que encontraram na internet ponto de partida para corajosas incursões literárias

Por André di Bernardi Batista Mendes


A Editora Letras Contemporâneas acaba de lançar o coletânea XXI poetas de hoje em dia(nte). Organizada por Aline Gallina e Priscila Lopes, o livro reúne escritores que utilizam principalmente a internet para divulgar seus trabalhos e textos literários. Trata-se de um belíssimo e interessante apanhado de bons artistas – alguns com obras publicadas no formato usual, outros completamente inéditos. São os praticantes da chamada e-poesia.

A internet é uma terra de ninguém. Mas, paradoxalmente, pode ser de todos. O mundo dá voltas, as curvas são inevitáveis e a região luminosa desses poetas abrange um largo território que extrapola vários limites. Vejo sinceridade, existem belíssimos textos na coletânea.

Entre boas surpresas, como Estrela Ruiz, filha de ninguém menos que Paulo Leminski, encontra-se outras promissoras vozes, como a dos mineiros Mônica de Aquino – uma das melhores poetas do livro – e Ronaldo Werneck e dos cariocas Victor Paes e Karinna Gulias. Autor do livro O óbvio dos sábios, Victor, sem pressa nenhuma, como um menino levado, ensina que é sempre possível resumir a luminosidade extrema de um poema, de um verso. Dizendo o mínimo, ele clareia o máximo. Trata-se, ao lado de Karinna, Mônica e Ronaldo, de poeta que já está pronto, que brincaria fácil na lista dos melhores escritores da nova geração.

Contudo, não se aplica o superlativo para definir muitos dos textos escolhidos do livro, é bom que se diga, mas o que transcende e o que realmente importa é que, ainda hoje, existem, resistem os poetas e a poesia, seja na rede mundial de computadores, seja no livro, que ora se torna, mal comparando, uma loja de brinquedos. Wilson Guanais encanta com a simplicidade de um raio: “Um dia/ eu quebro/ o inquebrável// : a casca/ do indizível”; e fulmina sem azáfama: “Sou poeta/ de um poema/ inacabado// : ainda/espero/ o inesperado”. Caixa de descobertas. Caixa escura. Toda poema é filho do mistério: “Quero/ apenas/ que/ o poema/ exista// e/ funcione/ um/ instante// se/ possível// que/ não/ o/ decifrem”.

Garimpo. Trabalho. Pérolas e diamantes. Panoramas. Batuques de várias tribos. Faróis. Com Poetas de hoje em dia(nte), Priscila Lopes e Aline Gallina forjaram forças e ampliaram 21 cantos para atualizar o sentimento de um pedaço de época. O primitivo som de diversas vozes. Poesias, poetas em trânsito, transidos de forças e palavras.

Aline Gallina, que, como Priscila Lopes, participa do livro, nasceu em Florianópolis, cursa artes plásticas e arquitetura e urbanismo e trabalha nas oficinas de arte da Fundação Catarinense de Cultura. Administra os blogs Cinco espinhos e ponto-e-vírgula. É dela o belíssimo poema “Tolerância”: “Sou de família azul/ parida pelo sul da vida/ Claro que não herdei/ a tolerância do silêncio// Minha mãe tem três filhos/ no futuro oco do espaço/ Meu ovo quebrou duas vezes/ antes de eu trazer eterna(mente)/ a tola herança da noite”.

Priscila Lopes, nascida em Brasília, é graduada em relações internacionais e cursa MBA em comércio exterior. Possui contos, crônicas e poemas publicados em antologias. Administra o blog Cinco espinhos e colabora com outros dois: Sindicato dos escritores baratos e Miniminimos. Dona de uma poesia singular, forte, é dela o poema “Corpo mole”: “Estamos fracos, sim quebramos/ frascos/ de perfumes baratos/ Carros demais/ atravessam a luz do dia/ Estamos na avenida sem ver/ o carnaval passar sem sambar/ o samba do crioulo/ doidos varridos/ porta à fora do sucesso (...)”.


Resenha publicada no Estado de Minas em 04.07.2009

01 Agosto 2009

Márcio-André no Prosa & Verso, sobre Bruce Andrews

L=A=N=G=U=A=G=E 40 graus
Márcio-André

Na semana passada, esteve no Rio de Janeiro o poeta, teórico e performer Bruce Andrews, seguramente um dos mais importantes representantes da literatura americana atual. Foi um dos fundadores do movimento L=A=N=G=U=A=G=E no início dos anos 70, tendo editado, com Charles Bernstein, a revista homônima, que viria a surgir em 1978 e que foi a grande responsável pela popularização do movimento. Bruce, que veio ao Brasil por conta de uma apresentação de sua esposa, a coreógrafa Sally Silvers, aproveitou para supervisionar a tradução de sua primeira série de poemas vertidos para o português e realizar uma performance de poesia sonora na Estação das Letras. Em sua passagem, além de entrevistas à Rádio Fluminense e à revista Confraria, ele se encontrou com poetas do Rio e de São Paulo.

Numa conversa informal, que começou na barca Rio-Niterói, passando por um ônibus lotado e algumas ruas de Santa Teresa, para terminar em um boteco no Largo das Neves – trajeto inusitado para quem está habituado ao cenário experimental novairoquino –, Bruce revelou estar emocionado em conhecer o Brasil. Profundo admirador de MPB, do Sepultura e, sobretudo, do Concretismo, segundo ele, uma das principais influências e motivações na fundação da L=A=N=G=U=A=G=E, demonstrou-se bastante atento ao que se está produzindo por aqui. Seu interesse, deixa bem claro, é com a “avant-garde”, com as novas possibilidades criativas e estéticas. Admite não conhecer a poesia brasileira mais recente, sobretudo por conta da carência de traduções para o inglês, mas teme que a coisa esteja enferrujando. Contou que um amigo, estudante de literatura em São Paulo, teve sua tese recusada ao propor uma dissertação sobre a Language Poetry. Os motivos: um tópico sobre poesia americana seria aceitável apenas se fosse do tipo mais conservador, mas sobre uma poesia mais radical ou experimental só seria aceitável sendo brasileira. “Uma combinação de nacionalismo e conservadorismo que corre o risco de resultar em uma radical insularidade e um paroquialismo da comunidade literária local”, diz ele.

Parece-lhe que, no Brasil, a poesia está numa encruzilhada. Ou se encontra uma poesia narrativa, bem dentro da tradição, ou ainda se está preso ao fantasma do Concretismo, movimento que, apesar de sua admiração, considera ultrapassado. “O Concretismo foi suficiente em 60, mas não é suficiente para uma tradição. É limitado. Os brasileiros precisam ir além, senão correm o risco de se fecharem”. Provocado pela pergunta se então a Language seria suficiente, ele responde: “Talvez não, mas a sua vantagem está no fato de ser uma reunião de diversas possibilidades que a tradição pode oferecer à linguagem. Apesar da ênfase na materialidade da língua, nós não paramos na tradição visual ou sonora. A Language é um grande guisado com diversos ingredientes, enquanto o Concretismo utiliza alguns poucos e limitados. Isso se deve ao fato de a Language ser mais aberta, menos idiossincrática, agregando continuamente ingredientes que não existiam quando surgiu: a cultura pop, a arte digital, a internet, a virtualidade. Hoje já se utilizam softwares ou mesmo o Google para fazer poesia”. Sua preocupação é relevante: corremos o risco de terminar no “tupiniquinismo”, apostando em um movimento que deu certo internacionalmente como única possibilidade de sermos internacionais.

Também professor de ciências políticas na Fordham University, Bruce acredita no diálogo entre a literatura de ambos os países: “Minha sensação é a de que a poesia americana mais radical pode ser bastante relevante por aqui, ainda que os professores queiram falar sobre figuras históricas e os editores continuem publicando os mais tímidos seguidores do modernismo”. E arremata: “Tem havido grandes inovações e certamente seria uma boa fonte de troca”.

Mas Bruce pareceu também contaminado pelo despojamento local. Caminhando pelas ruas da Lapa após sua elogiada performance, e vez ou outra fotografando a textura dos muros para sua série de fotos abstratas, ele reflete sobre o que pode enriquecer a experiência poética como um todo, mesmo internamente: “Creio que a poesia precise prestar mais atenção à dança experimental. Não se pode ter movimento poético sem prestar atenção ao corpo e as suas possibilidades de movimento”. E de dança nós entendemos bem. Tendo saído do Brasil com uma penca de livros na mala que, admite, certamente não conseguirá ler por conta do idioma, fica-nos a esperança de que ele também descubra o que podemos oferecer ao lado de lá.

Em setembro nas bancas

19 Julho 2009

parabéns, Ronaldo, amigo, na via...

trecho de A via excêntrica de Ronaldo Ferrito, contemplado com a bolsa da Fundação Biblioteca Nacional para obras em fase de conclusão

"Passemos do caminho à obra, ou da espiritualidade à poética, pois facilmente notamos de há muito serem aqui, na linguagem, o mesmo. As obras de linguagem enquanto caminho possuem em sua liturgia o que permite sua constante atualização. No entanto, o que compreende as possíveis atualizações é algo que por primeiro se deu e continua a vigorar na totalidade do destino que é e permite ser a obra. Nova e obstinadamente, chamamos esse obrar de Realização. Essa é o trânsito imperioso ao qual nos apela e nos exige toda obra: tornar-se real. Momento também de experienciação da sua liminaridade, de um passamento (morte) em reversão: do invisível para o visível, da potência para o ato. Entendamos, pois, que nesse trânsito não se trata de proscrever do real a potência de obra, senão justamente trazê-la à completude e à unidade na sua passagem para o campo das concreções. Entendemos aqui que realizar guarda a ação de uma passagem e de uma permanência das obras para constituir um atributo impreterível e existente em tudo que é real: a ubiqüidade. Ou seja, estar ao mesmo tempo nos dois âmbitos que encerram o total da realidade: ser simultaneamente a potência e o ato de si mesmo, ou simplesmente ser e não-ser. Aqui, uma diferenciação entre realizar e atualizar: esta só é possível após aquela, a realização é o momento inaugural da constituição litúrgica da obra e as atualizações se dão a partir desse mínimo concreto que estabelece a sua liturgia."


à queima-roupa

Algumas breves palavras minhas sobre poesia no blog Sambaquis, de Edson Cruz:
http://sambaquis.blogspot.com/search/label/Victor Paes

meu conto publicado na Polichinello #10

Z

Devidamente castigado o filho, a sala ficava vazia ao ponto dele mesmo ficar nela. Isso tão raro quanto ele realmente trancar portas. Media mais uma vez esse “devidamente”, até desviar sua atenção o álbum de figurinhas do filho sobre a mesa de centro. O tal álbum, sozinho sobre a mesa retangular da sala retangular. O tal álbum, retângulo de retângulos, mais uma vez fazendo sentido naquela geometria. Sabia que aquele sentido era do filho, então abriu o álbum, pela primeira vez, em busca de algo que o solucionasse. O melhor que achou foram os espaços sem figurinhas.
Havia tido cinco álbuns quando criança, um de bichos, um de calhambeques e três de selos. Gostava tanto mais dos selos, que até hoje os defende dizendo os bichos como objetos até para os selos. Calhambeques eram pura ficção.
Na adolescência, pornografia em quadrinhos. Na faculdade, arquitetura. Hoje, fotos de janelas. Fotos digitais, sem álbum: álbuns eram já cismas mais com o espaço que com o tempo.
E então mais: o tal álbum sobre a mesa, agora ao lado de um copo. Mas entre copo e álbum não podia haver nada, nenhuma geometria ou distração, pois o copo estava ali no mínimo duas vezes menos que o álbum.
Súbito, não esperou mais e o abriu pela quarta ou quinta vez. Descobriu que só havia um espaço sem figurinha. Desconsiderou essa distração, e isso adiantava. E ainda mais grave era o filho já ter dito algo sobre já ter tido nas mãos essa última figurinha: algo sobre um ser mitológico que possuía um olho a mais no rosto. Desconsiderou também isso. E também adiantava.
Abriu papéis e canetas, tentando trabalhar. Abriu as janelas. Do outro lado da rua, dois homens montavam um novo outdoor, ainda pela metade, a imagem de um rosto já pela metade. Para não esperar a outra, foi o suficiente: decidiu ir ao filho, levando-lhe biscoitos. O que mais queria dele? O quanto de x e o quanto de y? As paredes de pôsteres. A vista clara de cálculos. Muitas coisas fazendo sentido para o muito espaço que ocupavam. Um dia se reuniriam ali dentro para emassar as paredes e antes disso discutiriam, se valendo dos ecos, e lixariam até o último rasgo de papel ainda na parede, para que um dia não lhes viesse à memória, e a náusea de não ter mais o que fazer. Biscoitos, e se perguntaram pela última figurinha.
A vista turva: sentado na sala, uma ardência bruta, como se algo lhe talhasse a vista.
Já havia sentido quase isso quando se perdeu dos pais no mercado. De repente sozinho, algo lhe exigia o corpo: após muito chorar e andar, que tomasse o redor para si, aquele redor que se insinuava, com novas cores, novas alturas e texturas das coisas. Até que a mãe apareceu, cobrindo todo o seu ângulo de visão, e aí sabia que tudo devia ter se tornado novamente menor que ela.
Começou a andar, tropeçando pelos cômodos, e voltou a si: a mão no rosto sugeriu algo de absurdo, talvez no rosto, talvez na mão.
Pouco não pôde desconsiderar na vida, como, por exemplo, o nascimento do filho, ao qual assistiu por trás de uma filmadora. Os amigos insistiram, mas o fato é que naquela gravação as vozes ficaram afastadas das imagens, às vezes atrasadas, às vezes adiantadas, e ele culpou seu olho triste, de sua “eletricidade inconstante” (um diagnóstico meticuloso, que os amigos insistiam em ver). Fato para ele era o significado do filho ter chorado antes de nascer, e a náusea de não ter mais o que fazer.
E a mulher, que não cabia em seu olho.
Começou a procurar algo, tropeçando pelos cômodos, e voltou a si: a mão no rosto sugeriu um absurdo: dois olhos no rosto, um ao lado do outro. E ardiam juntos, e isso acabaria não sendo desconsiderado. Pois havia uma discordância entre esses dois olhos: agora parecia que alguns objetos que olhasse se recolhiam, e outros não, em uma espécie de hierarquia entre formas e linhas. Movido por essa tontura, saiu para a rua.
Corria, apesar das pernas parecerem várias, às vezes se transpassando, às vezes se embolando. Decidiu parar. Em uma esquina, os carros, inclusive os estacionados, pareciam composições de um trem, único e ao mesmo tempo maleável, desdobrando-se em um susto de pavorosas direções. E cada pessoa dentro de cada um tinha em volta de si um carro que a cada segundo era outro e diversos carros, que infinitamente se iam revezando e se dobrando para dentro. Uma pomba morta em um meio-fio parecia estar morrendo ainda, a cada segundo morrendo de novo a morte de cada ancestral sua, uma de cada vez... e ele parado, respirando ao máximo, para o máximo de atenção, nas pernas, cintura e ombros, e os carros, e as pessoas e as pombas... e olhava ao máximo, apesar da ardência, para realmente o máximo de olhar, para o ponto em que isso tudo poderia acabar, e as pessoas e as pombas... e respirava ao máximo e as pombas, e começou a contá-las, e mil, e quinhentas e vinte e duas, e cento e doze, e, assim, vinte e cinco minutos... e cada vez menos pombas, e doze, e cinco, até apenas uma, aquela única, uma, ali. Apenas uma pomba e ele ali parado. E parou a mão em frente aos olhos, como se fosse coçá-los, mas não havia coceira que justificasse o gesto.
E mais dez minutos e ele ali parado, com dois dedos diante dos dois olhos e nenhum outro gesto.
De repente, após um longo suspiro, pôs as mãos nos bolsos. E teve a impressão de que havia se esquecido de algo. Mas era apenas impressão. Tentou lembrar o que faria hoje na rua. Alguns passos e a merda de um carro parado na calçada, merda para quem estaciona! Ao se desviar, ficou de frente para uma janela com uma planta. E achou uma pena que não estivesse ali com sua câmera. Então se lembrou de uma planta de que havia cuidado, aos sete anos seus e oitenta dela, que os pais haviam deixado ao sair para uma viagem. Contavam, para sua responsabilidade, que a avó jurava que aquela planta, bendita, tinha folhas e anti-folhas que podiam, em uma chuva, estar em chuvas diferentes. Para ele, apesar de seus cuidados, a planta estava morrendo, talvez contra ele mesmo, contra sua responsabilidade. Tantas responsabilidades e ele ali agora, parado em uma calçada, sem nenhum argumento que não fosse tentar lembrar o que havia acontecido com aquela planta...
Sentado na sala, abriu mais uma vez o álbum, de onde caiu uma figurinha, a última, uma holografia de um ciclope, com seu olho vermelho. Teve a impressão de já tê-la visto antes. Seus olhos ardiam um pouco, talvez pela mudança do tempo. Contra o ímpeto de rasgar o álbum, jogou-o sobre a mesa de centro, pensando que talvez o filho pudesse estar vendo esse seu gesto.

02 Julho 2009

Artimanhas Poéticas

Amigos, este foi o Artimanhas Poéticas, evento de poesia organizado por Claudio Daniel, no Real Gabinete Português de Literatura, do qual participei, apresentando também o trabalho Que carro de boi é esse?. Na postagem de baixo, o video dessa apresentação. Abraços a todos.

no Artimanhas Poéticas

01 Julho 2009

12 Maio 2009

convite

Caros, amanhã estarei no evento Quarta poética: mostra de poesia contemporânea brasileira, organizado por Anderson Fonseca e Luiz Fernando Medeiros, na Universidade Estácio de Sá, em Niterói, junto a vários poetas e amigos, e apresentarei meu poema escrito e representado sobre a música Que carro de boi é esse?, de Pedro Osmar e Loop B. Gostaria de encontrá-los lá também.


Um grande abraço a todos.

[clique no convite para vê-lo melhor]

17 Abril 2009

Revista Polichinello 10

Amigos, na edição número 10 da revista Polichinello, um conto meu, que faz parte de meu próximo livro a ser lançado ainda este ano. Estou feliz...
























Participam desta edição

[ Daniel Lins ]- Fortaleza
[ Victor Sosa ] - México
[ Juliano Pessanha ] - São Paulo
[ Luís Serguilha ] - Lisboa
[ Giselda Leirner ] - São Paulo
[ Virna Teixeira ] - São Paulo
[ Ney Ferraz Paiva ] Tocantins
[ Efraín Rodríguez Santana ] - Cuba
[ Antônio Moura ] - Belém
[ Lúcia Castello Branco ] Belo Horizonte
[ Alberto Pucheu ] - Rio de Janeiro
[ Vicente Franz Cecim ] - Belém
[ Maria Inês de Almeida ] - Belo Horizonte
[ Ieda Magri ] - Rio de Janeiro
[ Márcio-André ] - Rio de Janeiro
[ Flávio Boaventura ] - Belo Horizonte
[ Denny Yang ] - China
[ Carlos Emilio Correia Lima ] - Fortaleza
[ Beatriz Bajo ] - Londrina
[ Goiamérico Felício ] - Goiânia
[ Victor Paes ] - Rio de Janeiro
[ Nilson Oliveira] - Belém

PROGRAMAÇÃO:

BRASÍLIA - Data: 23 de Abril, às 19h.
CONVERSAÇÕES ENTRE NILSON OLIVEIRA E O POETA JORGE AMÂNCIO
Local: T-Bone: SCLN 312 Bl B Lj 27 Brasília DF
.
GOIÂNIA - Data: 24 de Abril, às 14h30.
EXIBIÇÃO DO FILME MAURICE BLANCHOT,
seguido de Palestra de Nilson Oliveira.
Local: CINE UFG (Faculdade de Letras/Campus II)
.
BELO HORIZONTE - Data: 29 de Abril, às 19:30.
CONVERSAÇÕES: MAURICE BLANCHOT E A LITERATURA
Com: Lúcia Castello Branco / Flávio Boaventura /André Queiroz
Local: Fundação Gregório Baremblitt /
Instituto Felix GuattariRua Herval, 267 - Bairro Serra - Belo Horizonte.
.
BELÉM Dia 08 de Maio, às 17h.
Local: Casa das 11 Janelas
LANÇAMENTOS DAS REVISTAS POLICHINELLO & NÃO-LUGAR
Recital com Antônio Moura, Paulo Vieira, Luizan Pinheiro e Renato Torres.
Palestra do Filosofo Daniel Lins: Por uma Escrita Rizomatica

15 Abril 2009

1

Um mosquito morto na sobrancelha
e a voz cortada de legumes

– Aí do lado, quem abre a porta é sempre o marido


2

Carregar cem quilômetros de milhos
estuprar, reproduzir
vingar todos os irmãos

um grito,
a que nenhuma dália prevaleça

– Oh, sarça de alabastros...
– Não há milhos, senhor! Só rosanas...

E agora escurece e entram as moscas
até os ladrilhos

08 Abril 2009

convite para lançamento

Amigos, convido-os para o lançamento da coletânea XXI Poetas de hoje em dia(nte), da qual tenho o orgulho de ter sido convidado a fazer parte, organizada pelas poetas Priscila Lopes e Aline Gallina, publicada pela editora Letras Contemporâneas, de Florianópolis, com o apoio da Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte de Santa Catarina. O livro tem prefácio de Eduardo Jorge e introdução de Jayro Schmidt. Serão dois lançamentos, um em Santa Catarina e outro em São Paulo:
























Mais informações e links para os trabalhos de todos os poetas da coletânea:
xxipoetasdehjemdiante.blogspot.com

Um grande abraço a todos.

31 Março 2009

pra quem for dar uma passadinha pela Inglaterra...

09 Março 2009

poema que apresentei no evento Boca de Baco, escrito sobre a música "Que carro de boi é esse?", de Pedro Osmar e Loop B:

1

vai, inteligência de aviamentos
(são três, e isso é ser exatamente quatro)

vai, porque tudo escuta, um mover-se dentro

vai, até onde o tempo acaba
pois é lá que tudo se configura:

o tempo acaba nas bordas dos objetos


2

Alberto fugiu da escola com dois brinquedos verdes

foi encontrado entre a tarde e a noite
a não mais querer voltar de lá

Alberto foi a última palavra que Alberto aprendeu
(aprendeu antes “extintor” e “sumidade”)

uma vez tentou acordar antes do despertador
mas ele não tocou

gosta de tirar farpas dos dedos de seu avô
e abre envelopes melhor com os dentes

diz que sofre de elogios
mas calcula vaias

Alberto não fala de si
muito menos em público


3

vai, e encontra o centro do maior objeto de seu quarto
pois é lá que fica escondido um apito de lembrar silêncio
objeto, ainda assim

vai, porque pessoas são objetos três vezes ao dia


4

Alberto se pergunta: até que horas vale o jornal do dia?

uma vez inventou o objeto mais transparente do mundo:
um brinquedo, para seu irmão morto brincar

mas era tão transparente,
que, numa distração, nunca mais o encontrou

Alberto tem um assobio sem remédio em seu ouvido
que herdou com um carro de boi de seu avô

13 Fevereiro 2009

convite

29 Dezembro 2008

a gordura das cabeças